AIDS

A Aids, ou síndrome da imunodeficiência adquirida, é um quadro clínico extremamente grave, decorrente da infecção causada por um microrganismo da família dos retrovírus, denominado vírus da imunodeficiência humana (HIV).

O ser humano é a única espécie que se infecta e desenvolve doença por esse agente, do qual se conhecem duas subespécies distintas: o HIV-1, mundialmente distribuído e o mais freqüente no Brasil, e o HIV-2, predominante em alguns países da África Ocidental, entre os quais Costa do Marfim, Senegal e Guiné-Bissau.

Os primeiros relatos de pacientes com AIDS ocorreram em junho de 1981, em Los Angeles e Nova York. De lá para cá, a síndrome se alastrou, passando a constituir a maior e mais séria pandemia (epidemia com distribuição mundial) do século XX. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), existem cerca de 5 milhões de pessoas no mundo que contraem a doença anualmente, e mais de 40 milhões de portadores da infecção.

No Brasil, os números também impressionam: segundo registros do Ministério da Saúde, até hoje mais de 250mil pessoas já contraíram Aids no país, aproximadamente 600 mil estão infectadas com o HIV.

Características

Qualquer que seja a forma de contágio, depois que a pessoa se infecta o vírus torna-se um parasita no organismo, preferencialmente de células do sistema imunológico - entre as quais os chamados linfócitos auxiliadores (ou linfócitos T-4) , o que significa, na prática, destruir os agentes das defesas naturais do corpo contra infecções em geral. Essa destruição é lenta e progressiva: pode levar de oito a dez anos até que o indivíduo infectado perca a capacidade de proteção imunológica. Quando isso finalmente ocorre, ele fica sujeito a uma série de doenças por falta de proteção contra agentes infecciosos.

Qual a diferença entre ser portador do HIV e doente de AIDS?

A evolução dos danos causados pelo HIV varia entre os infectados, mas é possível identificar um padrão comum para esse desenvolvimento. Ao longo dos oito a dez anos mencionados, em regra a pessoa infectada não apresenta manifestações clínicas, mas há uma intensa multiplicação do vírus nas correntes sanguínea e linfática. Em mais de 50% dos casos, porém, podem surgir sintomas de infecção aguda logo após a contaminação, entre os quais febre, exantemas cutâneos (erupções na pele), aumento dos gânglios linfáticos (ínguas), discreta hepatoesplenomegalia (fígado e baço aumentados) e alterações de sangue semelhantes às que ocorrem na mononucleose infecciosa (ver neste capítulo o artigo 'Síndrome da Mononucleose Infecciosa'). Quase sempre esse quadro se resolve espontaneamente, e então a pessoa se mantém apenas como portadora do HIV por períodos variáveis, que dependerão do grau de multiplicação viral no paciente infectado e que duram em geral de oito a dez anos. Nesse período, esses pacientes são praticamente assintomáticos, podendo ser identificados apenas por exames de sangue com testes apropriados.

A partir de um determinado ponto, a destruição acentuada das células do sistema imunológico afeta a tal ponto as defesas orgânicas naturais que a pessoa passa a ser vítima de uma sucessão de doenças infecciosas - daí por diante, ela deixou de ser apenas portadora do HIV para transformar-se em doente de AIDS.

O HIV pode causar a morte do doente de AIDS?

A alta mortalidade da AIDS não se deve diretamente ao HIV, mas às infecções (a vírus, protozoários ou bactérias) que o doente contrai sem que seu organismo reaja adequadamente a elas. Entre essas infecções destacam-se as chamadas oportunistas, ou seja, aquelas que normalmente não causam doença em pessoas com o sistema imunológico em boas condições: por exemplo, a monilíase oral e esofágica (o popular 'sapinho'), a pneumonia causada pela Pneumocystis carinii (pneumocistose), a retinite por citome-galovírus (que pode levar à cegueira) e a encefalite por Toxoplasma gondii (toxoplas-mose cerebral). No Brasil, é importante ressaltar também a grande incidência de tuberculose, pulmonar ou disseminada.

Diagnóstico

Há vários testes sorológicos disponíveis para detectar anticorpos específicos contra o HIV e, desse modo, identificar a presença desse retrovírus em portadores que ainda não apresentam os sintomas da AIDS. O principal deles - e que, quando associado à avaliação de possíveis comportamentos de risco, leva ao diagnóstico da contaminação - é o ensaio imunoenzimático, conhecido como 'Elisa'.

Trata-se do teste mais ampla-mente utilizado devido à sua sensibilidade e especificidade, ao baixo custo e à praticidade.

O Elisa detecta a presença de anticorpos ao vírus HIV e não ao HIV propriamente dito, e sua positividade indica indiretamente que a pessoa encontra-se infectada pelo vírus. Como existe a possibilidade, ainda que pequena, de falsos-positivos (testes com resultado positivo para pessoas na realidade não infectadas), é preciso confirmar a positividade, especialmente em indivíduos que não tenham antecedentes e/ou quadro clínico compatíveis com o diagnóstico.

Além do diagnóstico sorológico da infecção, existem também métodos para a determinação do nível de destruição do sistema imunológico, que consistem em quantificar no sangue o número de linfócitos auxiliadores e o de linfócitos CD4 (ou dosagem de CD4).

Sabe-se que a diminuição relativa, ou principalmente a absoluta, de linfócitos CD4 está associada ao aparecimento de infecções oportunistas.

Há também uma técnica que permite medir a carga viral (dosagem de carga viral). Além da confirmação da infecção, já que detecta diretamente a presença do vírus, essa dosagem é de grande utilidade na avaliação da multiplicação do vírus na corrente sanguínea, constituindo hoje um parâmetro fundamental para controle do tratamento.

Prevenção

Cientistas de vários países vêm se empenhando na tentativa de descobrir uma vacina contra a Aids. Enquanto isso não ocorre, as principais medidas para prevenir a contaminação com o HIV são:

Campanhas de prevenção - considerando a importância dessa pandemia e a alta mortalidade a ela associada, a principal responsabilidade da prevenção cabe às autoridades de saúde, que devem promover campanhas regulares de orientação à população mostrando os riscos de transmissão do agente infectante e as formas de impedir o contágio.

Sexo seguro - o uso de camisinha é o meio mais eficiente de evitar a contaminação durante as relações sexuais.

Agulhas e seringas descartáveis - é essencial o uso de agulhas e seringas descartáveis em toda situação em que se vá injetar qualquer tipo de droga no organismo, seja esta ilegal ou medicamentosa.

Controle dos bancos de sangue - é fundamental, para impedir a transmissão de sangue contaminado para pessoas sãs.

Tratamento da grávida infectada pelo HIV - diversos estudos demonstram redução drástica da transmissão do HIV para o recém-nascido - a taxa chega a cair de 30 para menos de 1% - quando a grávida infectada é tratada com medicações anti-retrovirais.

Tratamento

O tratamento da síndrome, que deve sempre ser conduzido por infectologista, supõe medidas contra as infecções oportunistas e, se possível, prevenção à ocorrência dessas infecções e administração de medicamentos anti-retrovirais (especificamente, contra o HIV).

A primeira droga anti-retroviral específica, a zidovudina ou AZT, surgiu em 1987. Posteriormente, outros medicamentos com mecanismo de ação semelhante ao do AZT foram aprovados para uso clínico: didanosina (ou ddl), zalcitabina (ou ddC), stavudina (ou D4T), lamivudina (ou 3TC), abacavir, tenofovir, nevirapina e efavirenz. Eles agem impedindo a incorporação do vírus ao núcleo da célula infectada e diferem entre si principalmente pelos efeitos colaterais.

A partir de 1996 surgiu uma nova classe de drogas anti-HIV, inibidoras da protease, que impedem a liberação do vírus de células infectadas e, assim, dificultam o parasitismo de outras células. A associação desses medicamentos com o AZT ou semelhantes resulta nos chamados 'coquetéis anti-AIDS', que vêm demonstrando grande eficácia na reconstituição, ao menos parcial, do sistema imunológico das pessoas infectadas e na reversão da multiplicação do HIV na corrente sanguínea. Muitas pessoas conseguem, com boa aderência ao tratamento, cargas virais negativas no sangue, embora a multiplicação ainda ocorra em reservatórios celulares.

Convém lembrar que até o momento, com as drogas disponíveis, não existe possibilidade de suspensão do tratamento e que a falta de adesão completa a ele torna o vírus resistente aos medicamentos empregados.

Transmissão

O principal mecanismo de transmissão do HIV, que responde por aproximadamente 60% de todos os casos, é o contato sexual da pessoa sã com outra infectada, por relacionamento hetero ou homossexual. Outros 30% derivam de transmissão do vírus por sangue contaminado, mas essa taxa vem sendo reduzida graças ao controle que se passou a fazer do sangue utilizado em transfusões. Mas continuam muito comuns os casos de contágio entre usuários de drogas injetáveis, pelo compartilhamento de seringas e agulhas.

A transmissão do HIV da mãe infectada para o feto, que ocorre na gravidez, durante o trabalho de parto e no aleitamento, era insignificante no início da pandemia, mas hoje já contribui para cerca de 3 a 5% dos casos no Brasil. Existem também relatos de contágio por inseminação artificial, por doação de órgãos contaminados e até por saliva, embora todas essas formas de transmissão ocorram em porcentagens relativamente baixas.

É importante mencionar que o convívio social com pessoas infectadas pelo HIV não significa risco de contaminação. Pelo mesmo motivo, não têm fundamento as crenças de que seria possível a contaminação pelo contato com tábuas de privada, roupas e outros objetos usados pelo doente.

Quais os principais comportamentos de risco em relação à transmissão do HIV?

No Brasil, os principais comportamentos de risco são as relações homo e heterossexuais sem prática de sexo seguro (ou seja, sem uso de camisinha) e o compartilhamento de agulhas e seringas por usuários de drogas injetáveis.


Categoria: Guia de Doenças

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